quinta-feira, 9 de março de 2017

Justiça bloqueia presentes de casamento de noivo devedor

Em um processo cível que tramita na Vara Cível do Paranoá, o juiz Fábio Martins de Lima determinou o bloqueio dos presentes de casamento de um empresário devedor. Segundo o magistrado, Giampiero Rosmo deve R$ 1,3 milhão em indenização à família de um morador do Varjão, que morreu após um acidente de trânsito, em 2008. A Justiça argumentou que o empresário dirigia acima da velocidade permitida e não teria prestado socorro, nem acionado os bombeiros, deixando o trabalhador preso nas ferragens. Em 2013, o TJ condenou o empresário ao pagamento de indenização por danos materiais e morais, ressarcimento dos gastos com funeral, além do pagamento de pensão mensal à viúva e aos filhos menores do trabalhador morto. Desde então, a família da vítima tenta, sem sucesso, receber o valor devido. Mas a Justiça não localiza bens em nome do empresário para penhorá-los.

Ostentação e colunas sociais

Na semana passada, a 5ª Turma Cível manteve o bloqueio dos presentes de casamento, comprados em listas registradas em três lojas de luxo. Segundo o magistrado que determinou a medida, apesar de não ter bens penhoráveis, o empresário ostenta padrão de vida que não condiz com a ausência de propriedades. O juiz citou a festa de casamento do réu, realizada em agosto. A celebração, registrada com pompa em colunas sociais, reuniu 600 pessoas em Pirenópolis, contou com apresentação de artistas de renome e foi regada a champanhe Perrier Jouet. “Há indícios de que o demandado realiza diversas viagens internacionais, situações que não se ajustam à suposta falta de patrimônio indicada pelos sistemas processuais”, argumentou o magistrado.

Em busca dos presentes

A noiva recorreu à Justiça para tentar recuperar os presentes de casamento bloqueados nas lojas de artigos de casa e de eletrodomésticos. Alegou que os “bens são impenhoráveis, uma vez que se destinam a mobiliar o futuro lar do casal”. A noiva alegou ainda ter arcado com as despesas da festa e, por isso, seria a dona dos produtos penhorados. A Justiça refutou a tese. “Os convidados de um casamento, quando oferecem presentes, não o fazem apenas a um dos noivos, mas a ambos”, argumentou o desembargador Robson Barbosa. Para a família do trabalhador, entretanto, a novidade não representa uma vitória definitiva. Só havia cerca de R$ 31 mil em presentes, valor muito inferior à indenização milionária devida aos parentes da vítima.

Justificativas

Na Justiça, o empresário alegou que a vítima morreu quase um ano depois da colisão e questionou “o nexo de casualidade entre a morte da vítima e os ferimentos causados em razão do acidente”. Ele argumentou que, nos termos do laudo de corpo de delito, os peritos concluíram que não havia risco de morte para a vítima e refutou a sua responsabilidade pelo acidente, frisando que, à época, a rodovia estava em obras e sem sinalização. O empresário contestou os pedidos de indenização pela ausência de comprovação dos gastos efetuados com o funeral da vítima e com o pagamento de despesas médicas e hospitalares. Também afirmou não haver comprovação da renda média da vítima, capaz de sustentar o pedido de indenização.

Informações do Correio Braziliense

sábado, 25 de fevereiro de 2017

La Isla Bonita

Enquanto o Carnaval pega fogo lá fora, eu penso e escrevo bobagens, não sei se para o tempo passar mais rápido, e voltar à rotina de trabalho, ou se somente para acalmar os pensamentos. Enfim, o certo é que mais uma vez aqui estou. Já começo até perceber que gosto de escrever no Carnaval. Talvez esteja até escrevendo pra ninguém, pois nesse período ninguém, ou pouquíssimas pessoas querem saber de leitura. Mas vou escrever.

Terminei mais um curso de culinária essa semana, desta vez um curso de pizzas, foi bom, muito bom. O mais fantástico é que ainda há o bônus de conhecer pessoas novas, e com um pouco de sorte, algumas interessantes.

Sim, mas minha vinda aqui nesta já madrugada de domingo é para tratar de outro assunto. Eu gosto de Madonna. Na verdade, adoro Madonna. Com exceção do trabalho que ela fez em Evita. Gosto tanto que um dia, uma moça me disse sorrindo, 'Fábio, Madonna é a diva dos gay, se tu não sabes, é bom saber, que é pra ninguém te confundir!'. Respondi que não há perigo, pois meu histórico depõe a meu favor. Sorrimos juntos. Realmente eu não sabia desse detalhe, sim, era uma novidade pra mim.

Hoje na madrugada, quer dizer, na madrugada de ontem, sábado, eu estudava um pouquinho, e quando o cansaço bateu resolvi parar e escutar uma música. La Isla Bonita, de Madonna.

Turista se deliciando com as belezas naturais de San Pedro/Belize

A música se refere à comunidade denominada San Pedro, localizada em um país de nome Belize, que fica no Mar do Caribe, local de uma beleza rara, digno de ser visitado. Não à toa que já coloquei aqui no meu caderno de desejos. Belize fica na América Central, já próximo ao México, mas avizinha-se também com a Guatemala. O país é bem pequeno, com apenas 300.000 habitantes, e uma extensão territorial igual ao Sergipe, bem menor que o meu Maranhão. A língua oficial é o inglês, mas sofreu influência da colonização espanhola, e, pontanto, lá sí habla español, meu espanhol é péssimo, detalhe!

De volta à música, eu a observava com mais atenção, e vi que Madonna usa a palavra 'Siesta', que me levou imediatamente à lembrança de meu primeiro contato com tal palavra e seu significado. No português falamos 'Sesta'. A primeira vez que vi essa palavra foi por meio de Josué Montelo na obra Tambores de São Luís, quando vez ou outra os personagens após seu almoço iriam tirar a sua sesta da tarde, especialmente Damião (personagem principal do livro). Sesta é aquele delicioso cochilo após o almoço, que pode ser de uns minutinho, mas pode também durar toda a tarde. Esse termo já não se usa mais aqui no Brasil.

Amanhã eu vou tirar uma sesta bem boa. Se Mariana deixar. Ela não dorme após o almoço nem amarrada. Crianças!

Pois Madonna usa a palavra Siesta (em inglês/espanhol), quando canta "I want to be where the sun warms the sky/When it's time for siesta you can watch them go by/Beautiful faces, no cares in this world/Where a girl loves a boy, and a boy loves a girl" (eu quero estar onde o sol aquece o céu, quando na sesta você pode vê-los partir, gente bonita, sem preocupação no mundo/onde a garota ama o garoto e o garoto ama a garota)

Uau... se San Pedro é isso tudo, quero ir pra lá já, pois Madonna não economiza nos adjetivos. Um rasgar de elogios só!

Bom, ou Madonna viveu algo de muito marcante e especial naquela ilha, ou ela floreou bastante na canção, ou esse lugar é divino mesmo. Fico com qual?

Assistindo ao clipe oficial, vejo uma mulher que acordara de um sonho, sonhou que estava em San Pedro, uma moça sem brilho, em um quarto não menos cinza. Ela, olhando ao infinito, caminha até a janela, onde imagina uns músicos latinos tocando e dançando, quando se vira de volta ao quarto, já é uma linda latina vestida de vermelho (acho que é vermelho, é vermelho, mas pode ser verde, parece muito com verde, sei lá), deitando-se ao chão, muito sensual, parece lembrar-se de algo, inicia um correr de mãos sugerindo levá-las às suas partes intimas, em uma cena apaixonante!

Em seguida segue à rua e se mistura aos músicos, cantando, dançando e atuando. E assim, o vídeo se finaliza com o talento magistral digno de artistas do nível de Madonna.

Agora acho que deixei bem explicado o por quê gosto tanto dela. Como não gostar!!! O vídeo merece ser visto e revisto. Vai lá, assiste, você vai adorar, e depois me conta.

Abaixo, letra e clipe! Madonna, em um despejar talento!!!

La Isla Bonita

(Madonna e Patrick Leonard)
Como puede ser verdad
How could it be true?

Last night I dreamt of San Pedro
Just like I'd never gone, I knew the song
A young girl with eyes like the desert
It all seems like yesterday, not far away

Tropical the island breeze
All of nature wild and free
This is where I long to be
La isla bonita
And when the samba played
The sun would set so high
Ring through my ears and sting my eyes
Your Spanish lullaby

The beautiful island

I fell in love with San Pedro
Warm wind carried on the sea, he called to me
Te dijo te amo
I prayed that the days would last
They went so fast

He told you, "I love you"

I want to be where the sun warms the sky
When it's time for siesta you can watch them go by
Beautiful faces, no cares in this world
Where a girl loves a boy, and a boy loves a girl

Last night I dreamt of San Pedro
It all seems like yesterday, not far away




Advogada larga tudo e vira Prostituta de luxo

Em junho do ano passado, Cláudia de Marchi, 34, deu entrada no pedido de licença de sua inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil. Devolveu a carteira de número 63.467, tirada em 2005, no Rio Grande Sul.

A justificativa deve ter entrado para os anais da entidade de classe: tornar-se "acompanhante de luxo".

Para exercer a nova profissão, uma das mais antigas do mundo, a gaúcha de Passo Fundo foi de mala, cuia e laptop para Brasília.

E deixou para para trás ainda uma carreira de professora universitária em Mato Grosso.


A mudança radical foi motivada pela demissão da Faculdade de Sorriso, do grupo Unic, onde dava aulas de direito constitucional, sua especialidade, em fevereiro de 2016.

Em 11 de abril, Cláudia de Marchi iniciava suas atividades como cortesã de luxo na Capital da República e também um blog onde passou a narrar suas aventuras dentro e fora da alcova.

"Eu tomei essa decisão depois de sair do magistério, quando fui demitida sem justa causa, por questão de egos nestas instituições particulares", relata, sem entrar em detalhes.

A faculdade também não dá mais informações sobre a dispensa, nem comenta a guinada de vida de sua antiga funcionária.

À desilusão profissional se somava outra com os homens. Cláudia foi casada e vinha de uma sucessão de relacionamentos fracassados. "Tanto no casamento quanto nos meus namoros, o sexo era o que havia de mais especial, então resolvi aproveitar só a cereja do bolo."

Na entrevista e nos posts diários em sua página na internet, a cortesã e blogger passa a ideia de estar se lambuzando em um banquete sexual iniciado três meses depois da demissão.

'SEU MAIOR PRAZER'

Há pouco mais de dez meses, a ex-advogada fazia o primeiro programa ao preço de R$ 500 a hora, reajustada recentemente para R$ 600.

"Descubra que elegância, beleza, finesse, cultura e inteligência podem coexistir numa única mulher! Cláudia de Marchi, vulgo seu maior prazer!", apresenta-se ela no site.

A acompanhante de luxo diz atender uma média de dois clientes por dia. Uma clientela exclusivamente masculina que, salienta, escolhe a dedo, teclando no WhatsApp do seu smartphone.

"Se o cara fala errado, eu dispenso." Em um post, ela expõe a tentativa de aproximação de um "analfabeto funcional". "Enterecei"?", transcreve ela sobre erro de português em mensagem recebida de um "interessado".

"Caraca, só se eu estivesse na sarjeta com cinco filhos para criar e passando fome eu transaria com um homem que, em plena era da informação, escreve desta forma!"

A gaúcha de 1,69 m ("pornográfica até na altura", brinca), 58 kg, sorriso largo, cabelos tingidos de louro e levemente ondulados, revela suas formas em fotos com e sem lingerie. "E nada de Photoshop, viu?", apressa-se em ressaltar.

SEXO E CULTURA

Ela se coloca no mercado do sexo pago vendendo o corpo e a bagagem cultural, requisito que diz exigir também dos homens dispostos a pagar o seu preço.

Levando em conta tal requisito, os políticos, clientes mais disputados por garotas de programa em Brasília, são até esnobados pela cortesã. "Eu não atendo deputados e senadores. Eles ganham bem, são poderosos, mas não quer dizer que tenham cultura."

Em seu diário virtual, narra um episódio desagradável protagonizado por um poderoso no fim do ano passado.

"Das costas aos braços vergões de tapas: marcas da violência de um cliente embriagado e ciumento que me agrediu em 22/12. Ah, cliente do ramo político, 'coincidentemente'."

A ex-advogada diz que decidiu não processar por agressão o deputado que foi seu cliente assíduo durante uns quatro meses, temendo a cultura que "culpabiliza a vítima". "Deste marginal, eu não quero nem falar o nome. Dele, eu só preciso esquecer que esteve comigo seis vezes anteriormente como lobo em pele de cordeiro."

O caso de violência é um "fato isoladíssimo", diz ela, que bloqueou o parlamentar no WhatsApp.

Cláudia garante que "consegue sobreviver cobrando bem de pessoas bem posicionadas na sociedade, sem precisar ser cortesã de político".

A julgar pelos relatos dos encontros, a admiração tem que se estender à performance sexual de quem paga por horas de prazer ao seu lado, seja em suítes de hotéis de luxo, seja no quarto do apartamento de classe média onde mora com a mãe na Asa Norte, no Plano Piloto.

"Até hoje, não fiz nada de que eu não goste. Não gosto de transar com mulheres, por isso não atendo casais. Faço sexo normal, oral e anal, que adoro. Com um homem, dois, mas homens. O resto, eu dispenso."

A gaúcha assevera que seu perfil, digamos, "impositivo" é a chave do seu sucesso. Ela também atrairia clientes interessados em uma profissional que sente prazer, literalmente, no que faz. "Eu gosto de sexo. Tô nessa pelo meu prazer também. Se não tenho tesão, não rola. Gozo sempre e costumo ter orgasmos múltiplos nos programas pagos."

Ela precisa satisfazer, obviamente, o próprio bolso. Por isso, considera pechinchar no preço um pecado capital. Motivo para o potencial cliente ser bloqueado no WhatsApp sem delongas.

"Sou acompanhante de luxo, não garota de programa. Faço uma distinção em relação ao próprio nível que tenho e valorizo isso."

GAROTAS DE PROGRAMA

A necessidade financeira, justificativa para muitas mulheres entrarem no mercado de sexo, é fator de vulnerabilidade, segundo Cláudia. "Tanto a garota de programa quanto a prostituta estão expostas a riscos maiores ao toparem tudo por dinheiro", constata.

No seu caso, a grana sempre importa, mas diz ter um colchão financeiro que lhe permite dizer não. "Quando entrei nessa profissão, eu tinha algumas economias e a grana do meu FGTS. Se um cliente não quer pagar o que cobro por hora, de fome eu não vou morrer."

É a deixa para dar conselhos às jovens que a procuram, como uma brasileira que foi para Miami ser "escort de luxo".

A principal cilada seria o consumismo. "Quando o dinheiro é facilmente auferido e se topa qualquer coisa, psicologicamente a pessoa vai se sentir mal e aí gastar é uma fuga."

Neste caso, costuma indagar o que adianta então ganhar tanto dinheiro e gastar na mesma medida. "É mais digno se tornar uma manicure, uma empregada doméstica."

Para Cláudia, o que a distinguiria da concorrência é "não se deixar subjugar", a menos que faça parte do jogo de sedução. "Muitos clientes me procuram pela curiosidade de transar com essa mulher empoderada." Razão pela qual ela estimula a leitura do site antes de cada encontro. "Faz parte da fantasia."

Alguns clientes pedem à escritora amadora que sonha em publicar um livro e tem um blog de crônicas que os deixem de fora do diário virtual. "Em geral, são aqueles de quem eu fico mais íntima. Daí eu omito as histórias."

Os textos são pródigos em cenas de sexo oral e sessões selvagens de sexo anal, entremeadas por citações literárias e dicas de série de tevê cult.

No perfil de Cláudia no Facebook, emerge também a feminista e a politizada. A cortesã critica a visão de parte do movimento feminista contrária à prostituição, entendida como forma de exploração. "É partir do pressuposto de que a mulher entra nessa obrigada. É o que acontece com menores que são exploradas sexualmente, o que é um crime. Não é o meu caso, que optei por me tornar uma profissional do sexo."

No espectro político, ela se coloca à esquerda. Teve um namorado que foi filiado à Rede Sustentabilidade e posiciona-se contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que classifica de "golpe parlamentar".

Considera "absurda" a indicação de Alexandre de Moraes a uma vaga no Supremo Tribunal Federal. "Eu lamento um dia ter comprado um livro dele, enquanto estudante de direito."

Comenta também a postura do presidente Michel Temer. "Ele está colocando seu ministro da Justiça, alguém da cúpula do próprio governo, no STF, onde é acusado de crimes por delatores da Lava Jato", critica. "Se Moraes fosse fiel às suas próprias teses, ele não poderia aceitar a indicação."

INDIGNAÇÃO SELETIVA

Na atual crise moral e ética da sociedade brasileira, a cortesã de luxo se diz incomodada com a "indignação seletiva", tanto na política quanto na vida.

"Quando me perguntam o que faço, digo que sou acompanhante de luxo. Sempre vai ter uma dondoca que vai me olhar de cima a baixo indignada."

A indignação costuma passar rápido, segundo ela, pois estas mesmas mulheres costumam autorizar os maridos a contratarem os seus serviços numa tentativa de salvar seus casamentos. "Ou melhor, elas querem salvar a boa vida que teoricamente ganham dos maridos infiéis."

Em posts cotidianos, Cláudia costuma cutucar a hipocrisia com frases de escritores e intelectuais. Nesta seara, tomou emprestado um pensamento de Simone de Beauvoir: "Entre as prostitutas e as que se vendem pelo casamento, a única diferença consiste no preço e na duração do contrato".

Ao expor suas ideias e se assumir sem meias palavras, a cortesã brasiliense se apresenta sem máscara para clientes e seguidores nas redes sociais. "Eu não tenho a menor vergonha de dizer que sou uma profissional do sexo."

Exemplifica com uma ida recente à Delegacia da Mulher para registrar um boletim de ocorrência sobre uso indevido de sua imagem em um site de acompanhantes.

O policial perguntou: "Você se importa se eu colocar prostituta como profissão?". Ela diz ter respondido não se incomodar, nem ter se sentido tentada a dar uma "carteirada" de ex-advogada.

Entabulou um papo com o policial sobre a necessidade de aprovação do Projeto de Lei Gabriela Leite, em tramitação no Congresso Nacional. Trata-se da legislação que propõe a legalização da profissão.

No entanto, a defesa dos direitos das prostitutas não consegue unir sua nova classe, critica a doutora. "Muitas aceitam ser marginais, tanto que se omitem, têm vergonha e ajudam a alimentar o preconceito", conclui a profissional que diz carregar no currículo com o mesmo orgulho os títulos de advogada, professora e cortesã.

Com informes da Folha

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Oh Nikita era tudo mentira

Em novembro de 1985 o cantor inglês Sir Elton John lançava um disco com o sugestivo título de Ice on Fire. Na década de 1980, em alguns países latino-americanos, acontecia um lento e gradual processo de redemocratização e a Guerra Fria dava sinais de cansaço. Governava a URSS Mikhail Gorbatchov, que tinha assumido em março daquele ano. Gorbatchov ficou conhecido pela tentativa de modernizar (ou tornar mais ocidental) a União Sovitética, com reformas econômicas, conhecidas por Perestroika, e reformas políticas e sociais, conhecidas por Glasnost.

Em Ice on Fire a faixa Nikita fez grande sucesso e, ao passo que capitalismo dava sinais de que venceria o modelo estatal-burocrático em que tinha se transformado a URSS, Elton John cantava provocantemente: “Ei Nikita, está fazendo frio/ Em seu cantinho do mundo ? /Você pode rolar ao redor do globo/ E nunca encontrar uma alma mais calorosa para conhecer /Eu vi você ao lado do muro/ Dez de seus soldadinhos de lata em uma fileira /Com olhos que pareciam gelo pegando fogo/ O coração humano, um cativo na neve (...) Nikita eu preciso tanto de você”. No videocliple o personagem interpretado por John estava em um carro conversível, com ares de turista, fotografando, mostrando passaporte e cantado para uma militar soviética que estava na fronteira. A canção é isso: uma fronteira que ainda insistia em existir entre dois mundos.

Era uma grande ofensiva ideológica e, claro, a música e o cinema eram mobiliados. Faltava pouco para o capitalismo ficar sozinho em cena, “democratizar” todo o mundo e provar que o livre mercado fariam todos e todas felizes. O leste europeu certamente não apresentava o melhor modelo de alternativa ao capitalismo, no entanto, no semanário alemão Der Spiegel pode-se ler reportagem extensa em julho de 2009 em que tinha como chamada: “Maioria dos alemães orientais sente que a vida era melhor no comunismo”. Recentemente aqui no Brasil o jogador sérvio Dejan Petković foi perguntado pela apresentadora Ana Maria Braga como era ter vivido num país (a Iugoslávia socialista) com tanto sofrimento e respondeu, deixando aquela inteligente senhora sem graça, que não havia sofrimento algum, todos tinham casa e emprego, os problemas vieram depois... com o capitalismo. O que os habitantes dos países do leste europeu conheceram no capitalismo foi uma explosão de prostituição, tráfico de drogas, desemprego, niveis alarmantes de violência urbana, alcoolismo, etc.
Nikita, era tudo mentira, o nosso mundo, em nada, é melhor que o seu. A liberdade aqui é para poucos, só para os que têm dinheiro, assim como o consumo de todas as benesses que o capitalismo oferece. Nikita, pode ter saudades, não deveria ter acreditado no amor fácil do Elton John. Aqui tudo e todos viram mercadorias e mercadorias não podem ter felicidade. Oh, Nikita, era tudo mentira.

Mas há ainda uma outra mentira, não na canção, mas no clip. O produtor retratou Nikita como uma linda e jovem militar. Mas na verdade, Nikita é um nome Russo Masculino. Elton John sabia desse detalhe, mas por algum motivo não deu esta informação a seu produtor. E assim, para a repugnante e preconceituosa sociedade Capitalista, Nikita era apresentada como sendo uma mulher. Mas a verdade é que Nikita, Nikita era homem, e bem ali, Elton John, ainda nos idos anos 80, se declarava gay.

Abaixo, letra e clipe desta linda canção. Deliciem-se!

Nikita

(Elton John)
Composição: Elton John / Bernie Taupin

Hey Nikita is it cold
In your little corner of the world
You could roll around the globe
And never find a warmer soul to know

Oh I saw you by the wall
Ten of your tin soldiers in a row
With eyes that looked like ice on fire
The human heart a captive in the snow

Oh Nikita you will never know, anything about my home
I'll never know how good it feels to hold you
Nikita I need you so
Oh Nikita is the other side of any given line in time
Counting ten tin soldiers in a row
Oh no, Nikita you'll never know

Do you ever dream of me
Do you ever see the letters that I write
When you look up through the wire
Nikita do you count the stars at night

And if there comes a time
Guns and gates no longer hold you in
And if you're free to make a choice
Just look towards the west and find a friend

Oh Nikita you will never know, anything about my home
I'll never know how good it feels to hold you
Nikita I need you so
Oh Nikita is the other side of any given line in time
Counting ten tin soldiers in a row
Oh no, Nikita you'l never know


Com informações de David Soares

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Ainda o "Caso Araceli", uma outra e apavorante versão

Tenho lido bastante sobre o caso da pequenina Araceli. Se a Mariana tivesse uma irmã, acho que poria o nome dela de Araceli, como homenagem a esse anjo que foi aos céus, e também como modo somar a todos os esforços contra abusos dessa ordem. Maria Araceli, Araceli Maria, Genoveva Araceli,... lindo nome.

Bom, na postagem anterior, eu havia prometido trazer uma outra versão existente sobre o caso da menina Araceli. sim, ela foi seviciada e morta brutalmente, mas há um fator de grande importância que deve ser considerado.

Paira sobre a mãe da menina a suspeita de que era usuária e na hora vagas também fazia a traficância de entorpecentes. E, pasmem, usava a criança nesse comércio. Pois bem. E foi exatamente em uma sexta-feira, quando a mãe enviou um bilhete à escola para que a menina saísse mais cedo, mais cedo para que pudesse fazer a entrega de um envelope. E na entrega desse envelope, ela foi até o apartamento de destino da "encomenda" e de lá não mais saiu com vida.

Pronto, está formada a dúvida. Teria a mãe contribuído indiretamente para tal fato? Claro que não exime nem diminui em nada a culpabilidade dos autores, mas é um fato considerável para este crime.

O Maranhense José Louzeiro relata essa versão em seu livro, - Aracelli, Meu Amor. Pretendo resenhar brevemente aqui para vocês se meu concorrido tempo permitir.

Por ora, deixo apenas a análise sobre essa segunda versão do caso. Veja abaixo o caso.

**********

Caso Araceli: Um crime que chocou o Brasil.

O motivo da escolha do dia 18 de maio para o Combate a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes segue abaixo. Leiam com atenção até que ponto a impunidade de nosso país pode chegar.

Durante mais de três anos, na década de 70, pouca gente ousou abrir a gaveta do Instituto Médico-Legal de Vitória, no Espírito Santo, onde se encontrava o corpo de uma menina de nove anos incompletos. E havia motivos para isso. Além de o corpo estar barbaramente seviciado e desfigurado com ácido, se interessar pelo caso significava comprar briga com as mais poderosas famílias do estado, cujos filhos estavam sendo acusados do hediondo crime. Pelo menos duas pessoas já tinham morrido em circunstâncias misteriosas por se envolverem com o assunto.

Ainda assim, corajosos enfrentavam os poderosos exigindo justiça, tanto que o corpo permanecia insepulto na fria gaveta, como se fosse a última trincheira da resistência. O nome da menina era Araceli Cabrera Crespo e seu martírio significou tanto que o dia 18 de maio – data em que ela desapareceu da escola onde estudava para nunca mais ser vista com vida – se transformou no Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Por uma dessas cruéis ironias, Jardim dos Anjos era onde ficava um casarão, na Praia de Canto, usado por um grupo de viciados de Vitória (ES) para promover orgias regadas a LSD, cocaína e álcool, nas quais muitas vítimas eram crianças – anjos do sexo feminino. Entre a turma de toxicômanos, era conhecida a atração quePaulo Constanteen Helal, o Paulinho, e Dante de Brito Michelini, o Dantinho, líderes do grupo, sentiam por menininhas. Dizia-se, sempre a boca pequena, que eles drogavam e violentavam meninas e adolescentes no casarão e em apartamentos mantidos exclusivamente para festas de embalo. O comércio de drogas era, e é muito enraizado naquela cidade. O Bar Franciscano, da família Michelini, era apontado como um ponto conhecido de tráfico e consumo livres.

Suspeitas sobre a mãe da menina

Araceli vivia com o pai Gabriel Sanches Crespo, eletricista do Porto de Vitória, a mãe Lola, boliviana radicada no país, e o irmão Carlinhos, alguns anos mais velho que ela. Na casa modesta, localizada na Rua São Paulo, bairro de Fátima, era mantido o viralata Radar, xodó da menina, que o criava desde pequenino. Segundo o escritor José Louzeiro que acompanhou o caso de perto e o transformou no livro “Araceli, Meu Amor” – o nomeRadar foi escolhido pela garota “para que o animal sempre a encontrasse”. Araceli estudava perto de casa, no Colégio São Pedro, na Praia do Suá, e mantinha urna rotina dificilmente quebrada. Ela saía da escola, no fim da tarde, e ia para um ponto de ônibus ali perto, quase na porta de um bar, onde invariavelmente brincava com um gato que vivia por ali.

No dia 18 de maio de 1973, uma sexta-feira, a rotina de Araceli foi alterada. Ela não apareceu em casa e o pai, num velho Fusca, saiu a procurá-la pelas casas de amigos e conhecidos, até chegar ao centro de Vitória. Nada. A menina não estava em lugar algum. Só restou a Gabriel comunicar a Lola que a filha estava desaparecida e que tinha deixado seu retrato em redações de jornais, na esperança de que fosse, realmente, somente um desaparecimento. No dia seguinte, quando foi ao colégio para conseguir mais informações, Gabriel ficou sabendo que a menina tinha saído mais cedo da escola. De acordo com a professora Marlene Stefanon, Araceli tinha “ido embora para casa por volta das quatro e meia da tarde, como a mãe mandou pedir num bilhete”.

Na véspera, Lola tivera uma reação aparentemente normal ao constatar a demora da filha em chegar em casa. Primeiro, ficou enervada; depois, preocupada. No sábado, tarde da noite, sofreu uma crise nervosa e precisou ser internada no Pronto Socorro da Santa Casa de Misericórdia. Ainda no início do processo, acabariam pesando sobre ela fortes suspeitas e graves acusações. Lola foi apontada como viciada e traficante de cocaína, fornecedora da droga para pessoas influentes da cidade e até amante de Jorge Michelini, tio de Dantinho. E mais: ela era irmã de traficantes de Santa Cruz de La Sierra, para onde se mudou tão logo o caso ganhou dimensão, deixando para trás o marido Gabriel e o outro filho, Carlinhos. Não se sabe até onde Lola facilitou ou estimulou a cobiça dos assassinos em relação a Araceli.

Menina era usada no tráfico de drogas

A respeito de Dantinho e de Paulinho Helal, dizia-se que uma de suas diversões durante o dia era rondar os colégios da cidade em busca de possíveis vítimas, apostando na impunidade que o dinheiro dos pais podia comprar. Dante Barros Michelini era rico exportador de café (tão ligado a Dantinho que chegou a ser preso, acusado de tumultuar o inquérito para livrar o filho). Constanteen Helal, pai de Paulinho, era comerciante riquíssimo e poderoso membro da maçonaria capixaba. Seus negócios também incluíam imóveis, hotéis, fazendas e casas comerciais. Já o eletricista Gabriel, seu maior tesouro era a filha. No domingo, ele foi à delegacia dar queixa, onde lhe foi dito que tudo seria feito para encontrar Araceli. Na Santa Casa, ele contou a Lola o resultado de sua busca e falou da garantia dos policiais de que tudo acabaria bem. Lola pareceu não acreditar – e chorou. O escritor José Louzeiro não tem dúvida:

Lola foi, indiretamente, a causadora do hediondo crime de que sua filha foi vítima.

“Na sexta-feira, a mando da mãe, Araceli tinha ido levar um envelope no edifício Apoio, no Centro de Vitória, ainda em construção, mas que já tinha uns três ou quatro apartamentos prontos, no 8º andar. A menina não sabia, mas o envelope continha drogas. Num dos apartamentos, Paulinho Helal, Dantinho e outros se drogavam. Ela chegou, foi agarrada e não saiu mais com vida”, conta o escritor.

O que aconteceu realmente com Araceli Cabrera Crespo talvez nunca se saiba. E talvez, seja bom mesmo não conhecer os detalhes, tamanha é a brutalidade que o exame de corpo delito deixa entrever. A menina foi estupidamente martirizada. Araceli foi espancada, estuprada, drogada e morta numa orgia de drogas e sexo. Sua vagina, seu peito e sua barriga tinham marcas de dentes. Seu queixo foi deslocado com um golpe. Finalmente, seu corpo – o rosto, principalmente – foi desfigurado com ácido.

Corrupção e cumplicidade da polícia

Seis dias depois do massacre da menina, um moleque caçava passarinhos num terreno baldio atrás do Hospital Infantil Menino Jesus, na Praia Comprida, perto do Centro da capital. Mas o que ele encontrou foi o corpo despido e desfigurado de Araceli. Começou, então, a ser tecida uma rede de cumplicidade e corrupção, que envolveu a polícia e o judiciário e impediu a apuração do crime e o julgamento dos acusados por uma sociedade silenciada pelo medo e oprimida pelo abuso de poder.

Dois meses após o aparecimento do corpo, num dia qualquer de julho de 1973, o superintendente de Polícia Civil do Espírito Santo, Gilberto Barros Faria, fez uma revelação bombástica. Ele afirmou que já sabia o nome dos criminosos, vários, e que a população de Vitória ficaria estarrecida quando fossem anunciados, no dia seguinte. Barros havia retirado cabelos de um pente usado por Araceli e do corpo encontrado e levado para exames em Brasília. confirmando que eram iguais. Por que a providência? Até então, havia dúvidas que era de Araceli o corpo que apareceu desfigurado no terreno baldio. Gabriel sabia que era o da filha – ele o reconheceu por um sinal de nascença, num dos dedos dos pés. Mas Lola disse o contrário. Assim que se recuperou, ela foi ao IML reconhecer o corpo e afirmou que não era de sua filha.

Louzeiro recorda um outro fato a respeito disso, altamente elucidativo. Certo dia, Gabriel levou o cachorro Radar ao IML só para confirmar, ainda mais sua certeza. Não deu outra: mesmo com a gaveta fechada, animal agiu realmente como um radar, como Araceli premonizara, e foi direto à geladeira onde estava o corpo de sua dona.

O delegado muda de opinião

Porém, sem que explicasse o porquê (na noite anterior, ele tivera um encontro com Dante Michelini), Barros Faria mudou de opinião e, ao invés de estarrecer a população de Vitória, provocou riso e deboche por uma lado, e revolta, por outro. O assassino de Araceli, segundo ele, era um velho negro, demente, que perambulava pela Praia do Suá, perto da escola da menina. Começava a escalada de suborno, ou de medo. Coisa que não fazia parte do caráter de um sargento da Polícia Militar, lotado no serviço secreto, e de um vereador do MDB de Vitória. O primeiro, Homero Dias, acabaria pagando com a vida as investigações que fez. Certo de que estava mexendo em casa de marimbondos, o sargento Homero procurava se cercar de muito cuidado durante suas investigações. Tudo que apurava, ele comunicava a seu superior imediato, o capitão Manoel Araújo, também delegado de polícia, em quem confiava. A esposa, Elza, e ao sogro, João Dias, confidenciou certa vez: “Já tenho material para incriminar muita gente. Acho que o capitão Araújo já pode interrogar o filho de Constanteen Helal.”

Repentinamente, Homero foi afastado do caso pelo próprio capitão Araújo e recebeu ordens de perseguir o traficante José Paulo Barbosa. o Paulinho Boca Negra, na ilha do Príncipe. Na operação, Homero foi atingido nas costas e morreu. O próprio Boca Negra diria depois, na Penitenciária de Vitória, até ser calado para sempre, tempos após, com 27 facadas: “Quem matou o sargento Homero foi o soldado da PM que estava com ele. Eu vi quando ele atirou.”

Evidências apontam para Helal e Dantinho

O vereador era Clério Vieira Falcão, falecido há cerca de seis anos, que travou incansável luta para botar na cadeia os assassinos de Araceli. Ele deflagrou uma campanha, que repercutiu em todo o país, exigindo a apuração do crime e a apuração dos culpados, que apontava: Dante de Brito Michelini, Paulo Constanteen Helal e a amante deste, Marisley Fernandes Muniz, viciada em drogas. O nome dela surgiu no caso graças à paciente investigação feita pelo perito Asdrúbal de Lima Cabral, o Dudu, que, com a ajuda de seu colega carioca Carlos Éboli, também muito contribuiu para que o caso não fosse esquecido. Louzeiro recorda, por exemplo, que certa ocasião Dudu seguiu a mãe de Araceli, Lola, até São Paulo. Ela tinha saído de Vitória vestida praticamente como uma mendiga e, num hotel da capital paulista, vestira roupas elegantes e embarcara num avião para a Bolívia. Motivo: comprar drogas para a gangue dos acusados, mesmo após a morte da filha.

Eleito deputado, Clério Falcão conseguiu formar uma CPI para apurar o caso, que obteve mais resultados que a própria polícia. Ouvida na CPI, Marisley Fernandes declarou que o casarão do Jardim dos Anjos era reduto de festas de filhos de milionários, onde se consumia grandes quantidades de cocaína e LSD.

Ela também disse, mas depois negou, que Paulinho Helal a tinha levado ao local onde estava o corpo de Araceli, num carro onde havia um frasco com um líquido amarelo e luvas. O objetivo dele, segundo a amante, era ver se precisava despejar mais ácido no cadáver para dificultar o reconhecimento. Também convocado a depor na CPI, o perito Carlos Éboli disse que os assassinos deram uma dose excessiva de LSD a Araceli.

O Caso Araceli também fez vítimas do lado dos acusados. Uma delas foi o jovem Fortunato Piccin, um viciado que perdia completamente a razão quando se drogava em excesso. Ele foi apontado pelo capitão Manoel Araújo como suspeito do crime e morreu depois de tomar um remédio trocado, na Santa Casa de Misericórdia de Vitória, da qual Constanteen Helal era provedor. Também há suspeitas de que o próprio Jorge Michelini, tio de Dantinho, tenha sido eliminado por ameaçar contar tudo que sabia. Numa madrugada, o carro que dirigia foi atingido pelo ônibus de uma empresa, cujos veículos só circulavam até meia-noite. Segundo Louzeiro, outros dois assassinados foram um mecânico que prestava serviços para Paulinho Helal e o porteiro do Edifício Apolo.

O corpo de Araceli, segundo as investigações, teria sido levado num Karmann-Ghia do Edifício Apolo para o Bar Franciscano, onde ficou dentro de uma geladeira. Posteriormente, o corpo teria sido conduzido à Santa Casa de Misericórdia, com a cumplicidade do funcionário do serviço de necrópsia Arnaldo Neres, que viraria depois dono de funerária. Finalmente, o cadáver da menina foi deixado no terreno baldio. Muita gente viu e soube do que estava acontecendo durante aqueles dias. Os carrascos de Araceli fizeram tudo quase abertamente, tal a certeza da impunidade. O inquérito policial não passou de uma farsa e o longo processo judicial não conseguiu transformar evidências em provas.

Ainda assim, em agosto de 1977, o juiz Hilton Sily (falecido em abril passado), determinou a prisão de Dante de Brito Michelini e Paulo Constanteen Helal, pelo assassinato de Araceli, e de Dante Barros Michelini, acusado de tumultuar o inquérito para livrar o filho. Em outubro do mesmo ano eles já estavam soltos e o juiz havia sido “promovido” a desembargador. Em 1980, Dantinho e Paulinho foram julgados e condenados, mas a sentença foi anulada. Em novo julgamento, realizado em 1991, os reús foram absolvidos.

O crime já prescreveu. Mas o Caso Araceli é uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Mexer com o assunto em Vitória ainda desperta medo, revolta e incredulidade.

com informações de Henrique Araújo do portal Diário de um Estudante de Direito

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"O caso Araceli", 44 anos, impunidade ou mistério?

Galerinha do bem! Dando continuidade àquela promessa de lançar sugestões de documentários, venho hoje para falar de um caso que me deixa pensativo. Não é bem de um documentário que vou falar. É sobre um crime ocorrido há 44 anos onde uma criança foi seviciada e morta brutal e covardemente. Em verdade, qualquer relato de crimes contra crianças ou adolescentes mexe bastante comigo. O caso Araceli é um desses. Mesmo lendo e relendo por várias vezes o mesmo texto, ainda fico chocado. Devo dizer que a lembrança sobre essa história me veio por que dei início à leitura de um livro que retrata a história desse episódio. Mas antes de tratar do livro quero situar os amigos do caso. Assim, nada melhor que duas matérias jornalísticas. A primeira lanço a vocês aqui embaixo. Uma outra lançarei em nova postagem. Depois, talvez, o que penso sobre o caso, e mais depois ainda, e de novo talvez, minha impressão sobre o livro. E claro, não necessariamente nessa ordem. Nossa, olhei aqui, esse parágrafo ficou enorme, bem contra a norma culta. Enfim. Abaixo a Matéria com adaptações deste Blog.

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Morte de Araceli faz 44 anos e crime continua impune no ES

Fato instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual contra Crianças. A Menina Araceli tinha 8 anos quando foi raptada, drogada, estuprada e morta.

Araceli Cabrera Crespo tinha 8 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada, no Espírito Santo, em 1973. Nesta segunda-feira (18), o desaparecimento da menina completa 42 anos, mas ninguém foi punido pelo crime. Após a prisão, julgamento e absolvição dos acusados, o processo foi arquivado pela Justiça.

Em memória à menina Araceli, uma das mais emblemáticas vítimas de violência contra a criança no país, o dia 18 de maio foi instituido como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, com a aprovação da Lei Federal 9.970/2000.

Todos os anos, nesta data, a impunidade sobre a morte de Araceli é lembrada e diversas atividades para discutir o tema são realizadas no Brasil. O G1 fez um resgate histórico do crime a partir de reportagens dos últimos 42 anos, revisitou os locais citados no processo e conversou com o homem que encontrou o corpo da menina.


O desaparecimento

No dia 18 de maio de 1973, uma sexta-feira, Araceli saiu de casa, no bairro de Fátima, na Serra, e foi para a Escola São Pedro, na Praia do Suá, em Vitória. No dia, a menina saiu da escola mais cedo, a pedido da mãe, Lola Cabrera Crespo.

Segundo a mulher, Araceli precisava sair antes da aula terminar, porque poderia perder o ônibus que a levaria de volta para casa.

Após sair da escola, ela foi vista por um adolescente em um bar entre o cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, em Vitória.

Ainda de acordo com esse adolescente, a menina não entrou no coletivo e ficou brincando com um gato no estabelecimento. Depois disso, Araceli não foi mais vista. À noite, o pai, Gabriel Sanchez Crespo, iniciou as buscas.

Página do jornal 'A Gazeta', do Espírito Santo, com notícia da morte de Araceli (Foto: CEDOC/ A Gazeta)

Corpo é encontrado

Dias após o desaparecimento, em 24 de maio, o corpo de uma criança foi encontrado desfigurado e em avançado estado de decomposição em uma mata atrás do Hospital Infantil, em Vitória.

Inicialmente, o pai de Araceli reconheceu o corpo como sendo da menina. No dia seguinte, ele negou, afirmando que o corpo não era o da filha desaparecida. Meses depois, após exames, foi constatado que o corpo era mesmo de Araceli.

Testemunhas e contradições

Durante as investigações, provas e depoimentos misturaram fatos com boatos. Mesmo 42 anos após o desaparecimento de Araceli, o assunto ainda é um mistério. Além de grande parte das testemunhas terem morrido, as que ainda estão vivas se recusam a falar do assunto.

Diante dos fatos apresentados pela denúncia do promotor Wolmar Bermudes, a Justiça chegou a três principais suspeitos: Dante de Barros Michelini (o Dantinho), Dante de Brito Michelini (pai de Dantinho) e Paulo Constanteen Helal – todos membros de tradicionais e influentes famílias do Espírito Santo.

A versão da morte da menina apresentada pela acusação, que mais tarde terminou no julgamento dos acusados, afirma que Araceli foi raptada por Paulo Helal, no bar que ficava entre os cruzamentos da rua Ferreira Coelho e César Hilal, após sair do colégio.

No mesmo dia, a menina teria sido levada para o então Bar Franciscano, na Praia de Camburi, que pertencia a Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob efeito de drogas.A versão da morte da menina apresentada pela acusação, que mais tarde terminou no julgamento dos acusados, afirma que Araceli foi raptada por Paulo Helal, no bar que ficava entre os cruzamentos da rua Ferreira Coelho e César Hilal, após sair do colégio.

Por causa do excesso de drogas, Araceli entrou em coma e foi levada para o hospital, onde já chegou morta. Segundo essa versão, Paulo Helal e Dantinho jogaram o corpo da menina em uma mata, atrás do Hospital Infantil, em Vitória.

Acusação

Em entrevista ao Globo Repórter de 1977, o promotor Wolmar Bermudes explicou a quem se destinavam as acusações.

"O Dante Michelini pai pesa a acusação de haver mantido a menor em cárcere privado, dois dias, no sótão do seu bar, em Camburi. Contra os dois, o Dante Filho e o Helal, pesam as acusações de haverem os dois ministrado a infeliz menor tóxicos e haverem ainda de maneira violenta mantido congresso carnal com a infeliz menina", disse na entrevista.

Desaparecimento de Araceli foi divulgado nos
jornais da época no ES (Foto: CEDOC/ A Gazeta)

Ainda segundo a denúncia, Dante Michelini usou suas ligações e influência com a polícia capixaba para dificultar o trabalho da polícia. Além disso, testemunhas-chave do processo morreram durante as investigações. Nenhuma dessas acusações foi provada.

Durante o julgamento, Paulo Helal e Dantinho negaram conhecer Araceli ou qualquer outro membro da família Cabrera Crespo.

Julgamento

Em 1980, o juiz responsável pelo caso, Hilton Silly, definiu a sentença: Paulo Helal e Dantinho deveriam cumprir 18 anos de reclusão e o pagamento de uma multa de 18 mil cruzeiros. Dante Michelini foi condenado a 5 anos de reclusão.

Na ocasião, o juiz Hilton Silly disse em entrevista ao Jornal da Globo que os três foram condenados, porque foi provada a materialidade e a autoria do crime.

"Foi através não só da farta prova testemunhal, mas também, sobretudo, da prova indiciária, que é chamada prova artificial indireta por circustancial, baseado em indícios veementes, graves, sérios e em perfeita sintonia de causa e efeito com o fato principal", afirmou.

Os acusados recorreram da decisão e o caso voltou a ser investigado. O Tribunal de Justiça do Espírito Santo anulou a sentença, e o processo passou para o juiz Paulo Copolilo, que gastou cinco anos para estudar o processo.

Por fim, ele escreveu uma sentença de mais de 700 páginas que absolvia os acusados por falta de provas.

Personagens do caso

Araceli Cabrera Sanchez Crespo – A menina de 8 anos foi sequestrada, violentada e brutalmente assassinada. O rapto aconteceu após Araceli sair da escola onde estudava, na Praia do Suá, em Vitória. Ela se tornou símbolo do combate à violência contra a criança e o adolescente no Brasil.

Lola Cabrera Sanchez Crespo – Mãe de Araceli. Boliviana, veio para o Brasil já adulta, onde se casou com o espanhol Gabriel Sanchez Crespo. Após o desaparecimento da filha, Lola se separou do marido e voltou para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde se casou novamente. Hoje, ela tem dois filhos e está viúva.

Antes de se casar novamente, Lola voltou para o Espírito Santo uma única vez, em dezembro de 1978. Na ocasião, ela foi presa suspeita de seviciar, abusar sexualmente e causar lesões corporais graves em uma menina de 13 anos, que ela havia trazido da Bolívia.

Família Cabrera Crespo. No sentido horário: Araceli; a mãe, Lola; o pai, Gabriel e o irmão, Luiz Carlos (Foto: Montagem sobre imagens de reprodução de A Gazeta e TV Globo)

Gabriel Sanchez Crespo – Pai de Araceli, o espanhol trabalhava como eletricista em uma empresa que prestava serviços para Companhia Siderúrgica de Tubarão. Depois da morte da filha, Gabriel se separou da mulher e formou uma nova família. Ele morreu, mas deixou além do irmão de Araceli, outros dois filhos.

Luiz Carlos Cabrera Sanchez Crespo – Irmão mais velho de Araceli, tinha 13 anos quando a irmã morreu. Ele morou na Serra, no Espírito Santo, mas se casou e foi para o Canadá. Ele é o atual proprietário da casa da família, no bairro de Fátima, na Serra.

Paulo Constanteen Helal, Dante Brito Michelini (Dantinho) e Dante de Barros Michelini – Os três principais acusados da morte de Araceli. Os Michelini já estiveram entre os maiores proprietários de terra do estado, com interesse na indústria e no comércio. Os Helal estão entre os maiores comerciantes, com interesses na hotelaria e no ramo imobiliário.

Paulo e Dantinho continuam vivos e moram no Espírito Santo. Já Dante Michelini já faleceu. À época do crime, ele já tinha mais de 50 anos.

Uma das principais avenidas da capital do estado recebe o nome do pai de Dante e avô de Dantinho, Dante Michelini (1897-1965), em homenagem aos seus trabalhos no desenvolvimento econômico de Vitória.

O fato da avenida ter o nome relacionado à família de um dos acusados do crime já foi motivo de protesto na capital do Espírito Santo. Em 2013, quando o desaparecimento de Araceli completou 40 anos, um grupo se movimentou para mudar o nome da via para Araceli. Ao longo da avenida, os manifestantes colaram adesivos com o nome da menina em cima das placas de identificação da via.

Em 2011, Paulo Helal foi preso durante uma operação, suspeito de falsificar documentos entregues ao Departamento Estadual de Trânsito (Detran).

Nilson Sant'anna – Perito que estudou a causa da morte de Araceli. Ao Jornal Nacional, em 1977, Nilson explicou que a menina morreu após ser submetida a uma intoxicação por barbitúrico, medicamento usado como sedativo. Além disso, ficou evidente que a vítima sofreu traumatismos quando ainda estava viva. 

Hilton Silly – Juiz responsável pelo julgamento que condenou os principais acusados do crime.

Paulo Nicola Copolillo – Juiz que estudou o caso Araceli por cinco anos, depois do julgamento de Hilton Silly. Ele escreveu uma sentença de mais de 700 páginas e absolveu os acusados por falta de provas.

Ronaldo Monjardim – Tinha 15 anos quando encontrou o corpo de Araceli, em uma mata atrás do Hospital Infantil de Vitória. Quase 42 anos depois, ele voltou ao local a convite do G1 e se lembrou do momento em que encontrou o corpo.

"Só tinha o corpo dela ali naquele local. Foi uma cena muito… Parece que eu estou vendo o momento em que eu encontrei ela, voltando aqui ao local", disse.

Silêncio

O G1 tentou entrar em contato com o irmão de Araceli, Carlos Cabrera Crespo, mas não obteve retorno. Segundo Aurélio Campos, um amigo da família que ainda mora na casa que pertence a Carlos, ele prefere não falar sobre o assunto.

Campos não autorizou a reportagem a entrar na casa onde morou Araceli, tampouco quis gravar entrevista. Ele afirmou que Dona Lola e Carlinhos estão "tentando seguir em frente" e por isso não costumam falar sobre o desaparecimento de Araceli.

A professora de Araceli, Marlene Stefanon, também foi procurada pela reportagem, mas não quis comentar o assunto. Segundo a filha de Marlene, a mãe não gosta de falar sobre a menina, porque tem medo.

Locais

Casa de Araceli – A construção sofreu pequenas reformas nos últimos 42 anos. O imóvel ainda pertence ao irmão de Araceli, que o recebeu de herança do pai. Desde meados de 1985, a rua, que antes era chamada Rua São Paulo, se tornou Rua Araceli Cabrera Crespo.

A rua e a casa onde Araceli viveu no Espírito Santo, em fotos atuais (Foto: Viviane Machado/ G1)

Colégio São Pedro – A escola onde a menina estudava já não existe mais na rua General Camara, Praia do Suá. No lote, foi construída uma igreja.

Colégio São Pedro em 1977 e local em 2015 (Foto: Montagem/ G1)
Bar Oasis – Naesquina entre a Rua Ferreira Coelho e a Avenida César Helal, era o local onde Araceli foi vista pela última vez para pegar o coletivo que a levaria para casa. Atualmente, uma loja de cosméticos funciona no local.

Esquina entre a rua Ferreira Coelho e César Helal. Imagens de 1977 e 2015 (Foto: Montagem/ G1)
Bar Franciscano – Bar e restaurante que pertencia à família Michelini foi derrubado há alguns anos. Atualmente, o lote encontra-se vazio e com algumas placas de propaganda. Está situado em uma região nobre e valorizada da cidade, na avenida Dante Michelini.

Bar Franciscano em 1977. Local foi derrubado e lote está vazio em 2015 (Foto: Montagem/ G1)
Cemitério Serra-Sede – Local onde o corpo da menina está enterrado. Eventualmente, o túmulo recebe visitas de pessoas que se interessam pelo caso.

Cemitério Serra-Sede, onde o corpo de Araceli Crespo está enterrado (Foto: Montagem/ G1)

Do Portal G1

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Deus e o Diabo em Cima da Muralha | Documentário

Bom, tem sido bem como eu já imaginava, meu tempo tem sido muito concorrido nesses últimos dias. Tenho dormido pouco, me alimentado menos ainda, estudando quando posso, e trabalhando no limite do corpo e do cansaço, e por isso meu pouco tempo para fazer algo que gosto muito, escrever aqui no Blog.

Tenho uma novidade, estou com uma viagem marcada para um curso que ocorrerá em São Paulo. É sobre escrita criativa e afetuosa. Espero com esse curso melhorar minha escrita (não que eu ache que escrevo mal. Sou leonino tá! E, portanto, tenho que escrevo muito bem, muito bem mesmo). Sobre o curso, sei que poderá tornar minhas publicações mais gostosas de serem lidas. E o melhor de tudo, tenho também que esse curso vai me ajudar a tirar definitivamente meu livro da mente e colocar no papel. Enfim, cenas para os próximos capítulos.

Bom, enquanto eu não consigo tempo para escrever um pouco mais, vou sugerindo a você uns documentários bem legais. Na verdade, são documentários maravilhosos de serem vistos, e ideal para quem se aventura na área jurídica, especialmente no crime. Na área criminal eu quis dizer.

Essa semana pretendo indicar três documentários a vocês até o fim da semana. Já indiquei um no último domingo. Vai o segundo.

Depois falamos mais. Beijos no coração! Fiquem com Deus!



sábado, 28 de janeiro de 2017

Sem Pena, um Documentário do sistema de justiça criminal

Sem Pena é um Documentário sobre o sistema de justiça criminal que conquistou prêmio de melhor filme em votação do público no Festival de Brasília e foi assistido por mais de 6 mil pessoas em 12 cidades brasileiras

Diretor responsável: Hugo Leonardo
Captação de Recursos: Paula Sion de Souza Naves
Associada coordenadora: Luciana Zaffalon
Idealização: Marina Dias Werneck de Souza

Após mais de cinco anos de trabalho, o documentário Sem Pena, do Diretor Eugênio Puppo, foi concluído, premiado e lançado nos cinemas. Resultado de uma parceria entre IDDD e Heco Produções, o filme mostra a realidade da Justiça brasileira sob o ponto de vista de pessoas envolvidas em investigações e processos penais e seus familiares, assim como sob o olhar dos principais atores do sistema de justiça criminal. Ao longo de 87 minutos, os entrevistados contam seus dramas humanos e familiares e, a partir de seus relatos, são evidenciadas as inconsistências da triste realidade prisional e processual brasileira. Vale muito a pena assitir!

Bom dia e tenham todos um maravilhoso sábado!

No link abaixo você poderá assistir a íntegra do documentário.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Viana realizará casamento homoafetivo, o primeiro de sua história

Foi publicado Edital de Proclamas de um Casamento Homoafetivo que será realizado na Cidade de Viana, o primeiro da história do Município.

STF e CNJ já autorizaram alguns anos atrás o casamento homoafetivo, e os tribunais e cartórios de Estados de vanguarda já o fazem há algum tempo. A nossa Capital, São Luís, já vem realizando também com alguma frequência. E agora é a vez da Comarca de Viana realizar o seu primeiro casamento homoafetivo de sua história.

Veja abaixo o Edital de Proclamas, no qual eu tive o cuidado de preservar os dados pessoais dos nubentes.


Por fim, o blog aproveita a oportunidade para deixar os votos de felicidades ao casal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Município condenado por queda de pedestre em calçada

A 10º Câmara Cível do TJRS manteve indenização por danos morais e materiais a pedestre que caiu ao caminhar por calçada desnivelada, com buracos e lajes soltas. O município de Porto Alegre deverá indenizar a autora da ação em R$ 15 mil.

Entenda o caso

Segundo a pedestre, enquanto caminhava no centro de Porto Alegre, na Rua Voluntários da Pátria, se deparou com buracos e lajotas soltas na calçada, vindo a cair e sofrendo fratura na perna esquerda. Foi levada ao Hospital de Pronto Socorro, onde realizou uma intervenção cirúrgica e, após, sessões de fisioterapia.

Ela alegou que a responsabilidade do acidente foi da Prefeitura, pois essa tinha o dever de fiscalizar o passeio público, mesmo que a manutenção não seja de sua responsabilidade. Na Justiça, ingressou com pedido de indenização por danos morais e materiais.

O Município afirmou que a responsabilidade da conservação das calçadas pertence ao proprietário do prédio em frente à calçada e que houve descuido por parte da autora.

Na sentença de 1º Grau o pedido de ressarcimento de R$ 1.270,34, pelos danos materiais, foi considerado procedente. Também foi determinada indenização por danos morais no valor R$ 10 mil.

Recurso

A autora e a ré recorreram da sentença. Ela requereu aumento no valor da indenização. Já a Prefeitura alegou que a responsabilidade de conservação do passeio público é do proprietário do imóvel, que buracos e desníveis em calçadas existem em qualquer cidade do Brasil. Também alegou culpa concorrente da vítima, que deveria ter atenção ao andar na via pública.

O Desembargador Jorge Alberto Schreiner Pestana, relator do caso, destacou que por mais que a responsabilidade do passeio público seja do proprietário do imóvel em frente, a municipalidade tem o dever de fiscalizar e assim tem responsabilidade subjetiva no acidente.

Segundo o magistrado ¿incumbe ao município o dever de conservar e pavimentar as calçadas públicas, bem como fiscalizar quanto às condições de trafegabilidade das vias¿

O relator ainda descartou a culpa concorrente da autora.

“Na espécie, a queda deu-se pela existência de desnível na calçada, ocorrendo o acidente na Rua Voluntários da Pátria, local de grande movimentação de pessoas no centro de Porto Alegre, na antevéspera do Natal (23/12), data em que sabidamente há maior aglomeração de transeuntes na região, não se podendo estabelecer, a partir disto, qualquer conduta culposa à autora pelo que veio a sofrer”, afirmou o Desembargador.

Assim, o magistrado deu provimento ao pedido da autora e aumentou o valor da indenização para R$ 15 mil. Também manteve o ressarcimento pelos danos materiais sofridos, corrigidos monetariamente.

Os Desembargadores Túlio de Oliveira Martins e Marcelo Cezar Müller votaram de acordo com o relator.
Informações de Correio do Povo

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sobre abusos praticados contra Advogados em Pedrinhas

Tenho acompanhado por noticiário policial e também por debates ocorridos nos corredores dos Fóruns a polêmica do mais novo brinquedinho dos agentes penitenciários que cuidam do Complexo Penitenciário de Pedrinhas.

Antes de tudo, preciso dizer que foi instituída pela SEJAP a portaria unificada, onde para se ter acesso a qualquer uma das casas penitenciárias, você deverá cumprir o protocolo de identificação em uma única portaria. Antes, cada casa penitenciária tinha a sua própria portaria, e por muitas vezes, com procedimentos diferentes para cada uma delas.

Agora, você passa por esta única portaria para então poder ter acesso a qualquer casa em que seu cliente possa estar recolhido.

Assim, creio que facilita por demais o controle do acesso de pessoas às unidades. Mais fácil e mais barato, podendo assim a SEJAP fazer maiores investimentos voltados para o procedimento de entrada.

E assim foi feito. A SEJAP investiu pesado naquela portaria, e adquiriu (ou alugou) um equipamento de nome Body Scanner ou Body Scan, que como o próprio nome sugere, faz um scanner completo do corpo daquele se se submete à revista.

Louvável a iniciativa do Governo, não fosse um pequeno detalhe. O CNJ por meio de resolução já determinou que todos que busquem acesso ao Sistema Prisional sejam submetidos a revista por meio inclusive de aparelhos de Raio-X. Diga-se, não há ainda regulamentação do Body Scan.

Pois bem, ocorre que aqui em Pedrinhas tal resolução é seguida à risca, mas... Pois é, tem o "mas".

Mas quando se trata de Juízes, promotores e defensores, alguns destes, me chegou notícia, se recusam a passar no Body Scan. Já foi testemunhado por algumas oportunidades algumas dessas citadas autoridades adentrando ao Sistema sem que fosse exigido o Scanner de seus belos corpos.

Meu entendimento é de que realmente tais autoridades sejam dispensados de tal constrangimento, até mesmo por que não há na história qualquer evento em que coloque qualquer dessas autoridades ou que os tenha flagrados tentando entrar e Penitenciárias carregando consigo celulares, armas ou drogas para os detentos.

E da mesma forma, aqui no Maranhão não tenho notícia de em toda a história algum Advogado ter sido flagrado carregando consigo drogas, armas ou celulares que se destinasse a presos.

Assisti a um debate, onde o próprio Presidente do Sindicato dos Advogados do Maranhão expunha também opinião nesse sentido.

Ora, então se não há na história qualquer fato onde tenham sido flagrados Magistrados, Promotores, Defensores ou Advogados levando consigo materiais ilícitos destinados aos detentos, então por que aqueles não se submetem à revista pelo Body Scan e estes devem se submeter???

Tenho isso como uma boa interrogação, não!

Seria uma presunção de que são os Advogados cúmplice, partícipes, ou ainda, sendo até mais claro, estão alguns Advogados contribuindo para a entrada de drogas, armas e celulares no sistema penitenciário???

E o pior eu vos digo agora. Peço que veja abaixo a imagem de um corpo no Body Scan.

Eis a forma como é tratado o Advogado do Maranhão

Há ainda algo pior nisso, pois a OAB ainda não manifestou opinião sobre tal assunto.

Não posso aceitar que para exercer o seu trabalho, tenha o Advogado, e notadamente a Advogada, sua intimidade violada com a exposição de seu corpo da forma como vista pelo Body Scan. Tenho como uma violação desarrazoada, que se mostra ainda como discriminatória na medida em que outros atores do sistema penitenciária, por algumas oportunidades não são submetem ou não se submeteram a tal procedimento.

De se registrar que o Sindicato dos Advogados do Maranhão e a Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas já se manifestaram sobre o assunto, e eu reproduzo a Nota.

Realmente eu desejo que a OAB manifeste-se sobre tal questão o quanto antes, e em sendo contrária a tal procedimento, que tome medidas necessárias.

Abaixo a Nota conjunta do Sindicato dos Advogados e da Associação dos Advogados Criminalistas.

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NOTA 

O SINDICATO DOS ADVOGADOS DO ESTADO DO MARANHÃO – SAMA e a ABRACRIM- ASSOCIAÇÃO DOS ADVOGADOS CRIMINALISTAS , em ação conjunta, foram nesta data (11/01/17), pela manhã, ao Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luis – MA, para verificar o tratamento dispensado aos profissionais de direito no pleno exercício da profissão. Na oportunidade advogados (as) , inclusive dirigentes das duas entidades foram submetidos ao procedimento para acesso à cadeia.

A comitiva foi recebida pela Sub Secretaria de Estado de Administração Penitenciária ANA LUIZA FALCÃO, que após ouvir atentamente os reclamos e protestos da classe pelas suas lideranças, tentou justificar as ações quase todas classificadas pelas entidades de advogados de excessivas , abusivas e regulamentada por uma portaria inconstitucional , fundamentada no inciso II, do Art. 69, da Constituição do Estado do Maranhão, c/c inciso II do art. 3º do Decreto Estadual nº 27.549, de 13 de julho de 2011, que nenhuma relação guarda com a legitimação para regulamentar a exigência de submissão a determinado procedimento que não seja imposto através de lei, contrariando, destarte , o inciso II, do Art. 5º da Constituição Federal ‘’ – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei’’.

A portaria , portanto, nos termos em que fora proposta, usurpa os poderes da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, na medida em que viola o inciso I, do Art. 24, da CF ‘’ – compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal, legislar concorrentemente sobre : I – Direito Tributário, Financeiro , Penitenciário, Econômico e Urbanístico’’.

A citada portaria também em nosso entendimento restringe o exercício da profissão de advogado no Complexo Penitenciário quando impede o acesso do operador do direito a seu cliente que encontra-se preso, constituindo cerceamento ampla defesa e ao contraditório, uma vez que cabe ao Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil regulamentar a profissão de advogado e não a Secretário de Estado através de portaria.

Com efeito o procedimento de acesso ao complexo foi regulamentado pela Portaria nº 983, de 14 de dezembro de 2016, aonde advogados e advogadas para terem acesso a seus clientes no presídio de Pedrinhas são obrigados a se submeterem a equipamentos de raio x e escâner corporal que violam o princípio da dignidade humana e expõem a privacidade dos profissionais de direito, já que as suas partes íntimas são expostas e visualizadas pelo responsável pelo sistema.

O mais agravante é que caso dos advogados (as) se negarem ao procedimento ilegal exigido, até por razões de saúde, são impedidos de trabalhar o que é vedado por lei.

Os advogados (as) ao se submeterem ao procedimento para verificação tiveram que passar por uma verdadeira devassa, ficando descalços e sem cinto, expostos ao público que na verdade não sabem quem são advogados ou familiares de presos e as mulheres nos corredores tendo que justificar qual o metal que faziam parte de suas vestes tais como sutiã, etiqueta de roupa, cinta, etc., tudo isto representando um verdadeiro vexame e constrangimento ilegal.

O SAMA e a ABRACRIM repudiam veementemente o procedimento adotado pelo Governo do Estado do Maranhão que nenhum exemplo está dando como representação democrática e instituição que deve respeitar os preceitos consagrados na Constituição Federal e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Neste sentido providências serão tomadas junto à direção do sistema, no judiciário, na Assembleia Legislativa e na Organização Internacional do Trabalho – OIT, uma vez que advogados e advogadas estão sendo tratados de forma inadequadas e impedidos de trabalhar quando não se submetem aos procedimentos ilegais.

São Luís – MA, 11 de janeiro de 2017.

MOZART BALDEZ
Presidente do SAMA

ERIVELTON LAGO
Presidente da ABRASCRIM